A arte de desfazer nós

Crônica de Helena Beatriz Pacitti para o blog Timilique.

Na janela da varanda haviam três cortinas de bambu, daquelas de enrolar e desenrolar. Não sei por qual motivo, se era o vento, o balanço das cordinhas ou algum outro mistério não decifrado, fato é que frequentemente apareciam nós espalhados por toda a extensão dos puxadores. Ao erguer as cortinas de manhã, sempre encontrava um novo nó. Caso estivesse retornando de viagem, depois de alguns dias, eram dezenas deles, muitas vezes sobrepostos. Para desfazê-los, era preciso lembrar de três coisas muito simples.

A primeira delas era nunca achar que seria impossível. A segunda era não se afobar. Quem se afoba corta fio, não desata nó. Era preciso ter paciência, muita paciência; tanto que, quando estava muito ansiosa, eu nem começava – deixava a tentativa para outro momento. A terceira era perseverar, não me preocupando em desfazer todos os nós de uma só vez. Era preciso ser humilde e gastar mais de uma empreitada para desenrolar tudo. Superadas essas fases, eu sentia o nó nas mãos. Percebia o tamanho, a tensão da corda,  a força do laço… Depois, com as pontas dos dedos, carinhosamente beliscava o fio da corda, procurando onde ela pudesse ceder. Coisa de se fazer aos poucos.

Essa coisa de nós enrolados me lembra, como sempre, do vovô. Já devo ter dito mais de uma vez que ele foi um dos meus melhores amigos – principalmente na vida adulta. Ele ouvia atentamente minhas dúvidas existenciais, meus draminhas e dramalhões. Claro que eram perguntas sem respostas: eram os piores nós! Tão mais fácil ele pegar a tesourinha das respostas prontas e cortar pela raiz, pronto. Mas não. Ele ouvia, ouvia, ponderava. Costumava ficar em silêncio. Não tinha pressa alguma em desfazer o nó. Mas também não desistia dele (no caso, de mim). Sem receita nem ciência. Desfazer nó é arte.


Trecho de uma crônica de Rubem Alves publicada em 1994, sob o título “Saúde mental”:

Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas se chama hardware, literalmente “coisa dura”, e a outra se denomina software, “coisa mole”. A hardware é constituída por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. A software é constituída por entidades espirituais – símbolos, que formam os programas e são gravados nos HDs. Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos, o cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Assim como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo espirituais, sendo que o programa mais importante é linguagem.

Um computador pode “enlouquecer” por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco, há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas porções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, porções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa de computador com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso de símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, escritores, amigos…

2 comentários em “A arte de desfazer nós

  1. A arte de desfazer nós é tudo isto que foi dito!
    Nunca havia me atentado para estas comparações.
    Periodicamente, há anos, eu troco as cordas do varal de roupas que se arrebentam pelo desgaste e em todas as vezes em que eu tenho que trocar, nem que seja apenas 1 corda, eu desato cada um dos 5 ou 6 nós que eu faço no total.
    Uma lição de paciência!

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